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Licinio de Almeida / BA

Com bolsa bloqueada, doutorando pode abandonar pesquisa de vacina contra zika
Estudante da UFRJ foi convidado pelos professores a ingressar no doutorado após um ano de mestrado. Capes diz que 3,4 mil bolsas permanecerão congeladas, mas a de Túlio Lima está entre outras 1,3 mil que serão desbloqueadas.
Com bolsa bloqueada, doutorando pode abandonar pesquisa de vacina contra zika
Túlio Macedo Lima, estudante de doutorado na UFRJ, participa do desenvolvimento de vacina contra zika e febre amarela — Foto: Arquivo Pessoal/Túlio Lima

Túlio Macedo Lima, aluno de doutorado na Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), está entre os milhares de estudantes afetados pelo bloqueio nas bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Anunciada pelo Ministério da Educação (MEC) nesta quarta-feira (8), a suspensão atinge 3.474 bolsas de pós-graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado). Após a publicação da reportagem, a Capes informou que o caso de Túlio Lima se enquadra entre as 1.324 bolsas que chegaram a ser bloqueadas, mas serão liberadas. Neste grupo estão estudantes de programas com nota 6 e 7 ou que fazem pós-graduação no exterior.

A situação de Lima chama atenção pelo seu histórico acadêmico: o estudante recebeu o aviso de suspensão depois de cursar um ano de mestrado e ser convidado pelos professores a ingressar diretamente no doutorado, graças ao seu bom desempenho e à importância de seu projeto de pesquisa.

Ao abdicar da bolsa de mestrado para concorrer à de doutorado, Lima acabou ficando sem auxílio nenhum por conta do bloqueio do MEC às bolsas consideradas ociosas, ou seja, que não estavam sendo pagas em abril. Situação que, segundo a Capes, será revertida já que seu programa tem nota 7.

Morador de Niterói, Túlio Lima gasta cerca de três horas por dia no deslocamento de casa até o Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), onde pesquisa vacinas durante de 8 a 10 horas, cinco vezes por semana, sob a orientação da professora Leda Castilho, da Engenharia Química e do professor Ricardo Medronho, da Escola de Química da UFRJ.

Seu principal projeto de pesquisa envolve o desenvolvimento de uma vacina contra o vírus zika. Ele também estuda a criação de um novo tipo de imunização contra a febre amarela, de produção mais rápida e com menos efeitos colaterais do que a atual.

Esforço pela pesquisa

Apesar da falta de bolsa, Túlio Macedo Lima diz que não pretende abandonar o projeto de pesquisa de vacinas contra zika e febre amarela na UFRJ.

    "Eu pretendo aguardar pelos próximos meses, mas é inviável continuar no doutorado por três anos sem bolsa", afirma Lima.

Lima diz que suas economias permitem que ele continue trabalhando no projeto, sem remuneração, por cerca de seis meses. Se depois disso ainda não tiver acesso a uma bolsa da Capes, o estudante pretende tentar duas alternativas para continuar sua pesquisa: adequar o projeto para pedir financiamento de empresas ou mudar-se para o exterior.

"O projeto já está bem avançado e a gente acredita que ele é fundamental para a saúde pública. Me mudar para outro país e continuar a pesquisa em outra universidade seria ruim porque meus colegas teriam que assumir as etapas pelas quais eu sou responsável, o que atrasaria todo o processo aqui no Brasil", explica.

Apesar do contratempo, o estudante afirma que não está espantado com o corte de bolsas da Capes. "Foram tantos acontecimentos seguidos, como o corte aos orçamentos das universidades federais, que a gente fica só triste, nem dá para ficar surpreso", avalia.

Desenvolvimento de vacinas

Outros seis pesquisadores trabalham no desenvolvimento de vacinas contra zika e febre amarela junto com Túlio Lima na Coppe. O projeto é focado na elaboração de vacinas que não utilizam vírus atenuado. No lugar dele é usada uma proteína estrutural do vírus, que não contém material genético.

"A vacina que existe hoje contra a febre amarela é muito segura e eficaz", explica Lima. "No entanto, como ela é feita com o vírus atenuado, em alguns casos muito raros ela pode trazer efeitos colaterais graves."

Outro problema, é que por ser feita a partir de ovos de galinha, a imunização usada atualmente demora meses pra ficar pronta, o que é prejudicial quando ocorrem surtos e a demanda aumenta.


Vacinação contra zika é uma das prioridades da pesquisa do estudante  — Foto: Valdecir Galor/SMCS


Vacinação contra zika é uma das prioridades da pesquisa do estudante — Foto: Valdecir Galor/SMCS


No projeto desenvolvido pela UFRJ as vacinas poderiam ser feitas mais rapidamente e a um custo potencialmente menor. A pesquisa também permite que seja desenvolvida uma vacina contra o vírus da zika, que ainda não existe.

A pesquisa usa células de mamíferos pra produzir em biorreatores uma partícula que imita o vírus, formada por proteínas da estrutura do vírus. Por conta desse método, até pessoas alérgicas ao ovo e pessoas com sistema imune enfraquecido poderiam tomar as novas vacinas sem ter reações, pois elas não são produzidas em ovos e nem com o vírus inteiro, como a vacina atual da febre amarela.

Trajetória acadêmica

O currículo acadêmico de Lima evoluiu de maneira bastante acelerada. No final de 2016 o estudante se formou, com honras, no curso de engenharia de bioprocessos da UFRJ. Em 2017, ele começou seu mestrado e, diante do bom desempenho, foi convidado para ingressar no doutorado já no final de 2018.

"Desde o meio da faculdade eu já sabia que queria trabalhar com saúde, apesar da formação em engenharia de bioprocessos", explica. "Até agora tem sido bem gratificante, mesmo com as condições atuais, que estão longe das ideais."


Lima destaca que a bolsa dos pós-graduandos não tem reajuste desde 2013 e que o auxílio não varia de acordo com a região do candidato. Os valores das bolsas da Capes são, em média, de R$ 1,5 mil para o mestrado e de R$ 2,2 mil para o doutorado.

"Em uma cidade como o Rio de Janeiro, onde o custo de vida é tão elevado, fica difícil sobreviver só com bolsa", diz.

    "No fim das contas, eu tenho uma situação privilegiada, porque eu ainda moro com meus pais. Metade das pessoas do laboratório onde eu trabalho são de outras cidades e não conseguiriam viver no Rio sem bolsa", diz o pesquisador Túlio Lima.

O estudante lamenta que a maioria de seus colegas de graduação esteja desempregada. Dentre os que conseguiram entrar no mercado de trabalho, muitos estão trabalhando fora da área em que se graduaram. Para Lima, a situação dos outros ex-alunos mostra a importância das bolsas para pesquisadores.

"O mercado de engenharia está bem debilitado com a crise", diz o pesquisador. "Meus pais ficam orgulhosos de eu estar trabalhando numa pesquisa de ponta, acham que é até melhor do que trabalhar numa empresa onde eu não teria tanto espaço para crescer."

Entenda o que é a Capes

A Capes é uma fundação do MEC responsável por avaliar os cursos de pós-graduação, divulgar as informações científicas, promover a cooperação internacional e fomentar a formação de professores para a educação básica.

Ela foi criada em 1951 e oferece, ao todo, quase 200 mil bolsas de estudo em 49 áreas de estudo para universitários da rede pública e privada: são 92.253 bolsistas na pós-graduação (no Brasil e no exterior) e 107.260 bolsistas de programas de formação de professores da educação básica.

No site da Capes é possível ter acesso a pesquisas em destaque. Entre elas, há o estudo que usa dados da Justiça para aprimorar as políticas públicas de saúde e a pesquisa sobre resfriamento de reatores nucleares, além do estudo sobre uma mutação genética que ajuda na proteção contra a malária.

Atualmente há 10 programas ativos da Capes em que o estudante pode solicitar bolsa. O pedido pode ser feito junto à universidade ou direto na Capes.

FONTE: G1

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